sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Pluralidade singular.

Nesse instante miraculoso,
Ela e ele voltam a se relacionar.
Ele, um velho sem fronteiras,
desgosta tanto das pessoas
que resolveu deixa-las em paz.
Ela, uma rapariga libertina,
tão apreciadora de humanos
que decidiu usar cada um deles.

A Ironia, palco principal
deste cenário catastrófico,
vai muito além de dois gumes.
Os golpes desferidos pela união
são praticamente incicatrizáveis.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

"Continua escrevendo poesia?"

Não possuo comigo clara lembrança
De todas aquelas pessoas que fui.
Vida e morte nos trazem a mudança,
Enquanto isso, a quarta dimensão flui.
Restam nomes, personas, entidades.
Alguns pontos marcantes em cidades.
Aqui jaz lembranças estroboscópicas,
Sem qualquer finalidade, kot ópica.

Tenho o que sou agora, isso já me basta.
Toda a multidão me gerou esta casta.

A multidão do fui, que está contida
Em meus atos, pensares e fonemas.
Ainda que não escrevesse poemas,
Poesia está contida em minha vida.

V.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Nunca será conhecido o que um sapo sente enquanto sentado no fundo de um lago, interpretando o mundo dos sapos ao seu redor.
Um cientista, não importa quão inferior possa ser seu trabalho, não permitiria nunca que os resultados de sua pesquisa fossem antropomorfizados, a menos, é claro, que seja um pateta.

domingo, 12 de agosto de 2012

Aceita.
Algumas histórias tem finais semelhantes. Acontece.
E o problema é com você.
Você é muito disponível.

- Eu sei. Mas é uma opção.

Uma opção ignorante. No mundo em que vive, você vai ser massacrado.
Precisa aprender a não estar disponível.

- Mas eu queria estar disponível.

Então devia também estar preparado para todas as consequências disso.
Ficar chorando e enlouquecendo só demonstra que não estava.

- Acredito que algum dia eu vou poder ser completamente disponível, sem ter problemas com isso.

Acredite no que você quiser, mas entenda isso: o mundo é predatório. Tudo e todos estão esperando somente uma brecha, uma meia possibilidade, e você será massacrado. Destruído.
Simplesmente porque esteve disponível demais.
É assim que o mundo é.

- Uma visão um tanto pessimista, essa.

Chame como quiser.
É exatamente o que aconteceu quando aquela aranha pulou em cima da sua mesa, enquanto você estava lendo, e você bateu nela com tanta força que ela virou uma gosma espalhada na sua palma.
Ela não te ameaçou, não te atacou, nada do tipo.
Só estava disponível demais.

- E agora está morta.

Você também. Mas ainda pode aprender essa lição.
Vê. Não disfarça,
Quando tudo da vida
já não tem graça.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A noite foi pressagiada. Quatro quarteirões de motoqueiros, reunidos por algum motivo, cruzou nosso caminho chegando ao bar.
Você não faz perguntas.

Foi tão roquenrroll assim.
Você não faz perguntas.

Eu dancei. No palco.
Sem mentiras.

Eu estava perdido. Procurando a mim mesmo.
Sem desculpas.

Estava programado para o porre.
Você tem que confiar no Doido.

O Doido some.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Dói.
- Que estranho. Um homem falando que dói é novidade pra mim.
Homens são uns idiotas.
Não sei explicar como, nem onde.
Mas dói bastante.
- Dói.
Você tá na sua curtindo o seu rolê, e de repente... A Dor.
No meio de uma conversa, de um pensamento, no trabalho, no trânsito. No meio da vida.
No singular.
- Não sei se sou louca, mas comigo, a dor vem do nada.
Do nada.
Um inconveniente, que não devia estar ali.
Não agora.
- Simplesmente chega, e me leva. Pode ser na saudade do frango frito da minha sogra, em acordar naquela cama com ele... Você não tem saudade de acordar juntinho?
Comigo, é diferente.
Tenho saudades de acordar, e falar com ela. Tenho saudades de acordar ela. Adorava quando ela me dizia que tinha o melhor despertador do mundo, ou que queria sempre acordar assim.
Pessoalmente era muito melhor. Acordar fazendo carinho, enchendo de beijos. Empolgando um pouco. Ela gostava.
Na maioria das vezes.
- Aquele frango era tudo.
Meu apetite é um frango. O primeiro que fica todo nóia quando as coisas não estão bem. Fico oito horas sem comer, e nem lembro que comida existe. Ai penso em cozinhar.
Apertem os cintos.
Lembro do quão divertido estou achando no momento cozinhar sozinho, e mudo de ideia.
Atravessaremos uma zona turbulenta.
Do nada, a fome de oito horas se transforma em oito dias, e eu preciso urgentemente de comida. Tem uma lanchonete boa aqui perto. Aquela, toda saudável, que tinha um lanche específico em promoção cada dia da semana. Aquela, que a gente sempre ia junto.
Dor.
Quinze centímetros, por favor. Não tem nada menor, por acaso?
- E o que você faz?
Depende.
Ou eu coloco uma máscara, controlo a respiração, desvio pensamentos, finjo que tá tudo bem porque aquele instante definitivamente não rima com lágrimas, ou me jogo no buraco.
- Não aprendi esse controle ainda. Eu caio no buraco, e ele me afoga. Mas é bom passar por isso.
É necessário.
- É. Necessário.